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sábado, 2 de abril de 2011

Fundamentos do método terapêutico de Nise da Silveira II

A Casa das Palmeiras

Uma experiência revolucionária na Psiquiatria


Franklin Chang *

(Continuação – Quaternio nº 8 /Homenagem a Nise da Silveira. Revista do Grupo de Estudos C. G. Jung - Obra Científica -p. 25 – Rio de Janeiro, 2001)

Método de tratamento - Psicologia de C. G. Jung


2.3) O terceiro substrato da fundamentação da Casa das Palmeiras se encontra na psicologia de C. G. Jung. Este, como a Dra. Nise, era psiquiatra, e ambos se preocupavam com uma questão essencial no tratamento dos esquizofrênicos: o que se passa dentro do doente?

Ambos tinham observado que os psiquiatras em geral não tinham interesse no que o paciente tinha a dizer, mas sim em fazer diagnósticos ou descrever sintomas e em compilar dados estatísticos. Quer dizer, a personalidade não interessava em nada, ou muito pouco. C. G. Jung nos conta em suas Memórias, no capítulo sobra Atividades Psiquiátricas, que Freud se tornou importante para ele devido a suas pesquisas sobre a psicologia da histeria e os sonhos. Reconhece que “Freud introduziu a Psicologia na Psiquiatria, embora fosse um neurologista”.6

Após quase 10 anos de trabalho ininterrupto como médico interno do Hospital Burghölzli de Zurique, tratando principalmente de esquizofrênicos, Jung chegou à seguinte conclusão:

“Através de meu trabalho com os pacientes, eu percebi que idéias paranóides e alucinações contêm um germe de significado. Uma personalidade, uma história de vida, um padrão de esperança e desejos existe por trás da psicose. A falta é nossa se nós não os entendemos. No fundo nós não descobrimos nada de novo de desconhecido no mentalmente doente; ou melhor, nós encontramos o substrato de suas próprias naturezas”.7


Jung, assim como a Dra. Nise, reconheceu que em muitos casos a exploração do material consciente é insuficiente, e que não se poderia entender o simbolismo dos conteúdos da psicose – delírios, alucinações, pinturas etc. – senão estudando mitologia.

Para ele, os símbolos através dos quais o inconsciente se expressa, seja nos delírios psicóticos ou em nossos próprios sonhos, são encontrados nos contos de fada, religiões e outros sistemas coletivos de imaginação e pensamento.

Lembra-nos que nós não somos apenas indivíduos isolados no mundo, que a “psique não é só um problema pessoal, mas um problema coletivo, mundial, e que o psiquiatra tem de lidar com o mundo em sua totalidade”.8

O interessante é que Dra. Nise chegou ao mesmo ponto em suas pesquisas, isto é, de que seria necessário estudar o conteúdo das psicoses para se compreender o que se passa por dentro do psicótico. Numa conversa pessoal, Jung recomendou a ela que estudasse mitologia para decifrar a linguagem do inconsciente.

Sob a orientação da Dra. Marie-Louise Von Franz, seguidora próxima de Jung, Dra. Nise realizou seus estudos em Zurique. Continuou suas pesquisas e observações clínicas no Hospital e na Casa das Palmeiras, que acabaram resultando em vários livros artigos de interesse para os psiquiatras, psicólogos e todos aqueles que se dedicam às Ciências Humanas em geral.

Depois de muitos anos de estudos ela concluiu:


“Escutando o doente, estudando suas pinturas e outras produções, o observador verificará que a matéria-prima de seus delírios é constituída de idéias e imaginações arquetípicas, soltas ou agrupadas em fragmentos de temas míticos. Se o observador sofre da deformação profissional característica do médico, inclinar-se-á a ver nas criações da imaginação, coisas inconscientes ou patológicas e rotulará apressadamente essas idéias, imaginações e ações como material produzido pela doença. Ma, se tomar posição fora do dogma pré-estabelecidos, irá difratar processos psíquicos surpreendentes. Irá vislumbrar a estrutura mesma da psique, nos seus fundamentos e no seu dinamismo”. 9


Um ponto ainda a ser observado é que na psicoterapia junguiana não se visa apenas a resolução de problemas pessoais, mas também estimular e favorecer o desenvolvimento de “semente criativas” inerentes ao indivíduo e que o ajudem a crescer.

Na Casa das Palmeiras, verificamos que as atividades expressivas estimulam o surgimento e o crescimento destas “sementes criativas”. Muitas vezes, a criatividade é o catalisador que permite a aproximação de diversos opostos como olho e mão, sentimento e pensamento, corpo e psique, e com isto os tumultos internos, impulsos arcaicos e emoção violentos encontram um meio de expressão, simples, mas de alto valor terapêutico.


6. Jung, C.G. – Memories, Dreams, Reflections. p. 135. Londres, Fontana. 1983. 7. Idem, p. 148 – 149. 8. Idem, p.154. 9. SILVEIRA. Nise da, Emoção de Lidar, p. 15. Rio de Janeiro. Alhambra. 1986.
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* Flanklin Chang – Presidente da Casa das Palmeiras de 18/03/1997 a 8/11/2001. Amigo muito querido de Nise da Silveira.

Continuaremos este artigo de Chang – Atividades da Casa das Palmeiras e Opiniões dos clientes sobre a Casa das Palmeiras.

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