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quinta-feira, 10 de julho de 2008

Pintura de Nise em canção

Bernardo Horta /2004

Um gato brilha em seu olhar
Mulher da futura imaginação
Mergulha em ruínas ancestrais
Diamante que surge da escuridão

Vertigem no espaço da mente
Senhora das imagens
Santa, louca, mãe da gente
Fina flor de eternidade

Em inumeráveis estados do ser
Persevera e se liberta do breu
Oh, moça que lê imagens
Diz: que mito sou eu?

Em vida, transcende o corpo
Sua lucidez a ultrapassa
Psicodélica, reveladora
Operária, tijolo-argamassa

Matriz da expressão de Sócrates
Diotima-madrinha, enternece
Freud sussurra o seu nome
Jung jamais a esquece

Selvagem antiga do engenho
Bruxa-ninfa superzen
Rebelde que transborda em fúria
Amor sem limite, indignação-amém

Exemplo de vida, vigor animal
Arquétipo da superação
Liberdade alucinante
A ira sagrada da revolução

Sons, imagens - portal de expressão
Coração exposto em sensibilidade
Mitos que provêm do ventre profundo
Semente de luz, cura e humanidade

Gênia doida, fera agressiva
Abre as portas do hospício, em urgência!
Derruba grades e grades
Mostra que o poder, este sim, é a demência

Mistério, entre livros e pinturas
Zênite que flui pelos ares
Matéria-prima de energia pura
Arqueóloga dos mares

Mestra, gata, Nise brasileira
Alguém sempre admirando-a no retrato
Personalidade forte e terna
Estrela tímida, de brilho estupefato



sábado, 28 de junho de 2008

Festa Junina / 27 junho de 2008


Ontem, São João e São Pedro estiveram presentes na Casa das Palmeiras.
Celebramos com os clientes, seus familiares, estagiários/as, colaboradores e amigos da Casa a tradicional Festa Junina - solstício de inverno.
Uma Pirra foi acesa para abrir, como celebração, as apresentações festivas de São João
Fogo vivificador!

Bandeirinhas e lanternas feitas pelos clientes junto com estagiários/as coloriam as salas, os espaços.
Uma lindíssima toalha Patchwork criada pelos clientes com a ajuda dos colaboradores cobria a mesa. Muitos salgados, canjica, cachorro quente, bebidas e doces típicos


Violões dos clientes com cantoria
Quadrilha, Casamento da roça, Coral, Forró
Pescaria e Correio do Amor
Muita “dança caipira” e alegria com roupas juninas!
Estagiários/as antigos se despedindo e portas se abrindo para outros/as

Lanternas foram acesas à tardinha para iluminar a Casa, a vida festiva

Muita Emoção de Lidar

Viva São João! Viva a Casa das Palmeiras!
Viva Dra. Alice Marques dos Santos e Dra. Nise da Silveira!

Frases dos clientes

13 de junho - Santo Antônio
24 de junho - São João
29 de junho - São Pedro
A Festa Junina comemora os três santos da Igreja. F.

Festa Junina é todo mundo com roupa de caipira. Todo mundo pintado. Chapéu caipira na cabeça. Doces, salgados, música, cantoria, dança folclórica, baile, tem cocada, pra mim é isso. C.

A Festa Junina representa para o povo brasileiro a dança dos casamentos e músicas do interior da cidade. O.

A Festa Junina na Casa das palmeiras tem pipoca, dança caipira, música e brincadeiras de São João. R.

A Festa Junina é uma festa típica do interior que significa congraçamento entre as pessoas, como acontece na Casa das Palmeiras. T.


A Festa de São João homenageia São Pedro e São João com os quitutes saudáveis da comida baiana. L.A.

A Festa Junina é uma festa, muito alegre e animada, que todos se divertem. J.E.B.V.

Aqui temos amigos
Aqui temos amigos fraternos. Incondicional.
Amor da Verdade
Amor do Equilíbrio
Amor da Paz. S.

A paz que esteja conosco na Festa de São João com a alma de Dra. Nise, presente. E.



domingo, 22 de junho de 2008

Desenho

Darcílio Lima - guache sobre papel - 24cm x 33cm.
Exposição Museu da República
40 anos de Estética - 1997

sábado, 14 de junho de 2008

Texto inédito de Nise da Silveira

Na Casa das Palmeiras entre papeis do Club Cultural, 1969, temos arquivado um belíssimo manuscrito de Nise da Silveira, amarelado com as marcas do tempo. Presenteamos este relato ao público que acompanha nossa página na internet.

“Começarei contando a vocês um sonho de Fernando, homem que está internado há muito anos no hospital de Engenho de Dentro.
Eis o sonho: Ele pula um muro e, do outro lado, encontra a rainha da Boemia, que lhe dá sapiencia. Aquela
imagem era a imagem do mundo todo - o mundo das imagens. Mudei para o mundo das imagens. Mudei a alma para outra coisa. As imagens tomam a alma da pessoa.
Pulou o muro e caiu noutra região da psique, na profunda esfera onde habitam as rainhas míticas, as mães, as deusas. Era o mundo das imagens. Mudou-se para lá.
Minha formação, como acontece a todo mundo que cursa universidades, fez-se na área do pensamento discursivo, da linguagem falada e escrita. Sobre as imagens eu não sabia quase nada. E agora lidava com pessoas que habitavam o mundo das imagens. Se quisesse comunicar-me com elas, se desejasse vislumbrar um pouco, ao menos, do que passava no íntimo daqueles seres atormentados, eu teria de iniciar-me humildemente no aprendizado de uma linguagem nova para mim, Uma linguagem muito difícil, pois as imagens me parecem ainda hoje cada vez mais complexas, misteriosas, inesgotáveis.
Vou falar a vocês desse aprendizado, as minhas dificuldades nos primeiros anos de meu trabalho e da ajuda que encontrei nos escritos dos mestres de teoria da arte.”

[Aqui termina o manuscrito. Sabemos pela rica biblioteca de Nise da Silveira o quanto ela pesquisou os mestres, estudiosos, das Artes Plásticas, a fim de compreender melhor o mundo das imagens que emergiam do inconsciente dos clientes que ela cuidava no Museu de Imagens do Inconsciente].

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Nise jovem

“A linguagem plástica é uma forma de expressão. Eu não chamo de arte, nem de longe tal pretensão. Não garanto que sejam artistas os trabalhos das pessoas que freqüentam os ateliês. Não sou eu quem decide se é arte ou não. A função do trabalho não é artística, é expressiva. Atividade expressiva das emoções, dos conteúdos internos. Não gostava do nome “terapêutica ocupacional”, foi quando um cliente na Casa das Palmeiras, na oficina de trabalhos manuais, tocando vários novelos de lã ele disse: como é gostoso amassar... trabalhar com tecidos é a emoção de lidar. Então pensei: eureka! Preferi em vez de terapêutica ocupacional adotar daí em diante emoção de lidar. Muito importante que o monitor ajude ao doente a descobrir a beleza do material com que trabalha.”
Rev. Ano Zero, 1991, RJ

sábado, 17 de maio de 2008

Artur da Távola

Dia 8 deste mes de maio, nosso querido amigo Artur da Távola - Paulo Alberto, partiu desta Terra deixando uma imensa saudade. Fizemos à tardinha uma doce homenagem com orações, palavras e música, o que ele tanto amou.
Dia 12 na atividade de Arranjo Floral uma outra homenagem, com flores nos vasos e nossas palavras, nós que frequentamos esta Casa.

As flores que estão na minha frente ajudam a embelezar a Casa das Palmeiras, tanto quanto o Artur da Távola/ T.

Que Deus abençoe Artur da Távola que já se foi/ C.

Meu caro Artur da Távola você escrevia no jornal O Dia, o amor venceu um mal / O.

Ao Artur da Távola com imensa gratidão...
Com Amor e carinho...
Ao inesquecível Amigo da Casa das Palmeiras
Deixo minha simples homenagem/ A.
****
O Brasil não esquecerá a nobreza de alma de Paulo Alberto Monteiro de Barros, nosso querido Artur da Távola. Ele se despediu deste mundo que tanto amou e sofreu e amou, para sem dúvida dar o salto quântico, para algo que nos transcende a inteligência. Dia 8 de maio de 2008, aqui na cidade do Rio de Janeiro, por volta das 14h00, aos 72 anos na flor da idade mais avançada.
Seu nome é ainda; cultura, música, refinamento, sensibilidade intelectual, desenho das palavras, simplicidade, doçura, sorriso, espiritualidade, afeto, doação de si. Consciência filosófica e fidelidade a si mesmo serviu de exemplo; dignidade como cidadão político. Permanecerá eternamente vivo porque, essencialmente, humano.
Paulo Alberto foi Presidente da Casa das Palmeiras, obra de sua saudosa amiga Nise da Silveira, de dez. de 2005 a dez. de 2007. Ocasião em que muito colaborou para o renascimento da Casa quando esta sofreu um cruel incêndio. Como Ave Fênix, pai-mãe amoroso, e com sábia bondade e compaixão, com postura receptiva, sentava-se à mesa ao lado de pessoas emocionalmente feridas (...). Não tinha medo do Inconsciente, muito pelo contrário, dialogava com as forças que emergem das profundezas do si mesmo. Muitas vezes presenciei os clientes abraçando-o com emoção e gestos de fraterna amizade. Conversava com os tidos loucos, marginalizados pela sociedade burra e insensível, com uma surpreendente delicadeza nas palavras e no olhar, ao se achegar aos mais pobres e desvalidos.
O mundo sempre se eleva com homens e mulheres que se depuram como pessoas e procuram acima de tudo serem humanos e generosos em seus pensamentos e atos.
Saudades querido Artur! Saudades querido Paulo Alberto! Saudades homem plural e uno!
Coro de Anjos acompanha a orquestra filarmônica celeste com atabaques ao receber Paulo Alberto!/ M.

domingo, 4 de maio de 2008

Pensamentos de Nise da Silveira


Notas arquivadas/1968 - 1999 / Grupos de Estudo C.G.Jung

“Fui guiada pela intuição.”

“O inconsciente é um imenso oceano, por vezes emergem umas imagens."
"A psique humana é um fenômeno fantástico. A capacidade criadora é extraordinária.”
“Aprendi mais com a literatura do que com os trados de psiquiatria. Um conto de Machado de Assis, Missa do Galo, exprime com mais clareza e sutileza as coisas do que um psiquiatra. Aprende-se mais com Machado de Assis sobre a natureza humana do que em livros de psicologia.”

“A pintura é um trabalho importante para o esquizofrênico. Através da pintura, com a presença do afeto catalisador, ele vai se encontrando com o mundo externo. O afeto sempre ajuda o indivíduo que está perdido, e vivendo num mundo interno fragmentado.”

“Convivendo com os esquizofrênicos eu vi através da produção criativa que se revelam das profundezas do inconsciente que não existe a decadência e a deterioração descritas nas obras de psiquiatria.”

“Sempre me dirigi aos doentes pelo nome, jamais os chamo de pacientes. Eu os trato como seres humanos, pessoas. A palavra paciente me irrita muito.”

“Esquizofrenia tem outro nome, os diferentes estados do ser.”

“Para Jung vários métodos. Para cada cabeça um chapéu e não o mesmo para todas as cabeças. O que vale para um tipo psicológico, não vale para outro tipo psicológico. Muita flexibilidade para não se seguir uma trilha única. Tudo depende de cada caso, cada pessoas, não há receita única.”

“Não dissipe as imagens oníricas. O analista corre atrás do cervo, mas não o mata, tem que pegá-lo vivo, estudá-lo vivo. Tem que pegar a imagem viva e não estripá-la.”

“Jamais quis definir o que é loucura. Compre em escafandro e mergulhe junto como esquizofrênico. Ver o lado saudável do doente. O núcleo é saudável.”

“O fogo não é nada, inferno é o congelamento. Não confundir congelamento com indiferença, o congelamento, a petrificação é sofrimento. Um bom observador, com bom disconfiômetro observa os olhos vivos do ser petrificado.”

“A psicologia de Jung está mil anos à frente do nosso tempo. Jung já afirmava desde o início do século que matéria e energia é uma só coisa.”

“Para Freud as imagens plásticas são meras projeções do inconsciente, estão lá. Para Jung é bem mais que simples projeções do inconsciente. O fato de desenhar, pintar, esculpir, modelar, já é por si mesmo terapêutico.”

“O estudo das imagens é acompanhar nesta viagem das imagens. Picasso pintou Gernica, o militarismo alemão, acompanhado do sofrimento violento. Ninguém faz nada sozinho.”

“Eu sou do mundo das imagens".