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domingo, 18 de novembro de 2012

A Psicologia da Esquizofrenia segundo C. G. Jung


                                                                                             Nise da Silveira

            A psiquiatria foi o ponto de partida de C. G. Jung. E permaneceu objeto constante de suas cogitações. Com efeito, aos 32 anos publicou um livro com o significativo título de A Psicologia da Demência Precoce (1907) e um de seus últimos trabalhos foi apreciação de conjunto sobre a Esquizofrenia (1957), quando constava 82 anos de idade. Entre estes dois marcos capitais distribuem-se numerosos estudos referentes à esquizofrenia, que se acham reunidos no 3º volume de suas Obras Completas.
             (...)
          A. A. Brill, freudiano ortodoxo, tradutor da edição inglesa de Psicologia da Demência Precoce, classifica este livro “pedra angular da moderna psiquiatria interpretativa”.
          Já em Psicologia da Demência Precoce e Conteúdo das Psicoses ressaltam características marcantes do pensamento junguiano quanto à vida psíquica em geral. Se Jung dá o máximo de esforço para desvendar as significações encerradas nos desafiantes sintomas da esquizofrenia, não o faz só por curiosidade científica. Ao mesmo tempo acentua que as múltiplas manifestações da doença se originam de atividades psíquicas comuns a todos os seres humanos, apenas liberados de freios e formuladas sob forma simbólica na loucura.
          Na última página de Conteúdo das Psicoses, escreve: “Nós, pessoas sadias, com os dois pés na realidade, vemos somente a ruína do doente neste mundo, mas não enxergamos as riquezas da face da psique voltada para o outro lado”. E adiante, continua:“Embora estejamos ainda longe de conseguir explicar todos os entroncamentos daquele mundo obscuro, podemos afirmar com segurança completa que na demência precoce não existe sintoma alguma sem base psicológica, sem significação. Mesmo as coisas mais absurdas são símbolos de pensamento não só compreensíveis em termos humanos, mas que habitam também o íntimo d e todos nós. Na loucura nada se descobre de novo e desconhecido: estamos olhando os fundamentos de nosso próprio ser, a matriz dos problemas nos quais nos achamos todos engajados” (3). Se esta posição fosse aceita pela psiquiatria, evidentemente daí decorreriam mudanças totais na relação médico-psicótico e o tratamento psiquiátrico tomaria rumos novos.
(...)
Já que os conteúdos típicos do mundo subterrâneo psíquico são sempre “material sadio, convém sublinhar que a palavra psicopatologia, em linguagem junguiana, refere-se ao comportamento autônomo desses conteúdos, à intensidade excessiva de sua carga energética, à violência entra os opostos peculiares à estrutura básica da psique, à maneira como se contaminam entre si, às mil formas de suas recíprocas associações. E sobre tudo ao avassalamento do consciente por tais conteúdos, situação que perturba gravemente o contato com a realidade.
            A psicopatologia junguiana é “uma ciência que mostra aquilo que está acontecendo na psique durante a psicose” (22). Note-se, entretanto, que Jung nunca usa a expressão psicopatologia da esquizofrenia, mas escreve constantemente psicologia da esquizofrenia. Já seu primeiro livro (1907) tem o título de Psicologia da Demência Precoce. Nas Memórias Jung diz que, escrevendo aquele livro, seu objetivo “era mostrar que os delírios e alucinações não eram sintomas específicos da doença, mas também tinham uma significação humana” (23).
     Nos escritos posteriores continua empregando a expressão psicologia da esquizofrenia. Em Conteúdos das psicoses demonstra que todas as manifestações da esquizofrenia, delírios, estereotipias, etc., são susceptíveis de compreensão psicológica do mesmo modo que os sonhos de neuróticos ou de pessoas normais. O que varia é a complexidade da trama de elementos e a dificuldade de separar fios condutores dentro do emaranhado de fragmentos de dramas arcaicos dos quais somos de uma ignorância lamentavelmente quase total.
     Em resumo, segundo Jung, será necessário “para compreender a natureza das perturbações psíquicas situá-las dentro do contesto da psique humana como um todo” (24).
   
     1 – Jung, C. G. - C. W. 3.
     2 - Jung, C. G. – Memories, Dreams, Reflections, p. 146
                           Panthon Books, New York, 1963
3 – Jung, C. G. – C. W. 3 p. 178
     22– Jung, C. G. – 18, p. 353
     23- Jung, C. G. - Memories, Dreams, Reflections, p. 110
                                Pantheon Books, New York, 1963
    34 -Jung, C. G. 9, p. 55.

Fonte bibliográfica:
   Grupo de Estudos do Museu de Imagens do Inconsciente.
    Apostila / 1º semestre de 1980 - RJ  - pgs.65-72 
Nota: Observa-se que Nise lia as obras de Jung na língua inglesa. As traduções para o português década de setenta em diante. Obras completas, Editora Vozes, Petrópolis, RJ.
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