Rua Sorocaba 800, CEP 22271-100, Botafogo, Rio de Janeiro, Brasil.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Desenho

Darcílio Lima - guache sobre papel - 33cm x 47cm



Exposição

Museu da República / 1997

II Colóquio Latino-Americano de Estética

40 anos de estética na Casa das Palmeiras


(desenho salvo do incêndio de 3/09/2006)


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Nise da Silveira, 15/02 /1905 - 30/10/1999


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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

III Que é a Casa das Palmeiras

(continuação texto de Nise da Silveira -Módulo III - Casa das Palmeiras - Emoção de Lidar -1986)
Ambiente, experiência e funcionamento

Convivendo com o cliente durante várias horas por dia, vendo-o exprimir-se verbal ou não verbalmente em ocasiões diferentes, seja no exercício de atividades individuais ou de grupo, a equipe logo chegará a um conhecimento bastante profundo de seu cliente. E a aproximação que nasce entre eles, tão importante no tratamento, é muito mais genuína que a habitual relação de consultório entre médico e cliente. A experiência demonstra que à volta a realidade depende em primeiro lugar de relacionamento confiante com alguém, relacionamento que se estenderá aos poucos a contatos com outras pessoas e com o ambiente. O ambiente que reina na Casa é por si próprio, assim pensamos, um importante agente terapêutico.
A Casa das Palmeiras é um pequeno território livre, onde não há pressões geradoras de angústia, nem exigências superiores às possibilidades de resposta de seus freqüentadores.
Nunca procurou a coleira de convênios. Optou pela pobreza e a liberdade.
As relações interpessoais formam-se de maneira espontânea entre uns e outros. Distinguir médicos, psicólogos, monitores, estagiários, clientes, torna-se tarefa ingrata. A autoridade da equipe técnica estabelece-se de maneira natural, pela atitude serena de compreensão, face a problemática do cliente, pela evidência do desejo de ajudá-lo por um profundo respeito à pessoa de cada indivíduo.
Portas e janelas estão sempre abertas na Casa das Palmeiras. Os médicos não usam jaleco branco, não há enfermeiras e os demais membros da equipe técnica não portam uniformes ou crachás. Todos participam ao lado dos clientes, das atividades ocupacionais, apenas orientando-os quando necessário. E também todos fazem em conjunto o lanche, que é servido no meio da tarde, sem descriminação de lugares especiais.
É utilizado, quando necessário, e isso é raro, o uso de psicotrópicos em doses reduzidas e individualizadas.
Essas normas inusuais existem desde a fundação da Casa, em 1956. Não contribuíram para fomentar desordem. Pelo contrário, seus efeitos criaram um favorável ambiente terapêutico para pessoas que já sofreram humilhantes discriminações em instituições psiquiátricas a até mesmo no âmbito de suas famílias; isso sem citar, por demais óbvias, as dificuldades que se erguem no meio social para recebê-los de volta.
A Casa das Palmeiras, comporta a freqüência de 30 a 35 clientes funcionando em regime de externato nos dias úteis, das 13 às 17h30. Assim o cliente não se desliga de sua família e do meio social com seus inevitáveis problemas que aprende aos poucos a superar, graças aos enriquecimentos adquiridos através das atividades praticadas na Casa e dos laços de convivência amiga que aí se formam.
(continuação texto do Nise na próxima edição)

sábado, 2 de fevereiro de 2008

II Que é a Casa das Palmeiras

(continuação texto de Nise da Silveira - módulo II - Casa das Palmeiras - Emoção de Lidar - 1986)
Método terapêutico
"O principal método de tratamento empregado na Casa das Palmeiras é a terapêutica ocupacional, mas terapêutica ocupacional num largo sentido, não os mesmos procedimentos praticados correntemente sob esta denominação. Desde minha experiência iniciada em Engenho de Dentro com o método ocupacional, no ano de 1946, a primeira preocupação foi de natureza teórica, isto é, a busca de fundamentação cientifica onde firmar a estrutura do trabalho que estava sendo iniciado. Estudamos com a terapêutica ocupacional poderia ser entendida dos diferentes pontos de vista psiquiátricos (segundo Kraepelin, Bleuler, H. Simon, C. Schneider, neojacksonianos, P. Silvadon, psicanálise, psicologia analítica, etc.).
O objetivo era utilizar a terapêutica ocupacional, se corretamente conduzida, como legítimo método terapêutico e não apenas uma pratica auxiliar e subalterna, segundo acontece habitualmente.
Agora, na Casa das Palmeiras, este método ampliava-se e adquiria novas conotações adequadas a esta instituição destinada ao tratamento e à reabilitação de egressos de estabelecimentos psiquiátricos. Representava a Casa um degrau intermediário entre a rotina do sistema hospitalar, desindividualizada, e a vida na sociedade e na família, com seus inevitáveis e múltiplos problemas, onde a aceitação de egresso não se faz sem dificuldades.
Rótulos diagnósticos são, para nós, de significação menor, e não costumamos fazer esforços para estabelecê-los de acordo com classificações clássicas. Não pensamos em termos de doenças, mas em função de indivíduos que tropeçam no caminho de volta a realidade cotidiana.
Nesse sentido visamos coordenar intimamente olho e mão, sentimento e pensamento, corpo e psique, primeiro passo para a realização do todo especifico que deverá vir a ser a personalidade de cada indivíduo sadio. Na busca de conseguir esta coordenação, fazemos apelo às atividades que envolvam a função criadora existente mais ou menos adormecida, dentro de todo indivíduo.
A criatividade é o catalisador por excelência das aproximações de opostos. Por seu intermédio, sensações, emoções, pensamentos, são levados a reconhecerem-se entre si, a associarem-se, e mesmo tumultos internos adquirem forma.
Jamais temos a pretensão, está claro, que nossos clientes realizem obras de alta qualidade artística (o que às vezes acontece!). Terapeuticamente, o mais importante é que o mundo interno dissociado tome forma e encontre meios de expressão através de símbolos transformadores que o aproximem cada vez mais do nível consciente.
A tarefa principal da equipe técnica da Casa das Palmeiras será permanecer atenta ao desdobramento fugidio dos processos psíquicos que acontecem no mundo interno do cliente através de inúmeras modalidades de expressão. E não menos atento às pontes que ele lança em direção ao mundo externo, a fim de dar a estas pontes apoio no momento oportuno."
(continuação do texto de Nise na próxima edição)

Desenho

Jair Góis - guache e lápis cêra - 33cm x 49cm

Exposição
Museu da República / 1997
II Colóquio Latino - Americano de Estética
40 anos de estética na Casa das Palmeiras


sábado, 26 de janeiro de 2008

Que é a Casa das Palmeiras

Nise da Silveira [em oito módulos]

Livro: Casa das Palmeiras - A Emoção de Lidar - uma Experiência em Psiquiatria
Ed. Alhambra, 1986. RJ.

I - A fundação da Casa
Desde muitos anos nos preocupava o fato de serem tão numerosas as reinternações nos nossos hospitais do Centro Psiquiátrico. Basta dizes que dentre os 25 doentes internados nesses hospitais por dia, em média, 17 eram reinternações. Infelizmente a situação em 1986 é quase a mesma: para 28 internações, 16 são reinternações (pelo menos segundo nossas precárias estatísticas).
Mas voltemos à década dos anos 50. Parecia-me que tantas reinternações davam testemunho de que algo estava errado no tratamento psiquiátrico. Um desses possíveis erros (entre outros) estaria na saída do hospital, sem nenhum preparo adequado do individuo, quando apenas cessavam os sintomas mais impressionantes do surto psicótico. Não era tomada em consideração que a vivência da experiência psicótica abala as próprias bases da vida psíquica. Depois de um impacto tão violento o egresso dificilmente se encontraria em condições de reassumir seu anterior trabalho profissional e de restabelecer os contatos interpessoais exigidos na vida social.
Durante vários anos pensei quanto seria útil um setor do hospital, ou uma instituição que funcionasse como espécie de ponte entre o hospital e a vida na sociedade. Naturalmente seriam necessários recursos financeiros dos quais eu não dispunha para que fosse tentada experiência desse gênero. Conversei sobre o assunto com vários colegas que, entretanto, não mostraram interesse pelo projeto.
Mas aconteceu que no inicio do ano de 1956 a psiquiatra Maria Stela Braga, recente colaboradora da Seção de Terapêutica Ocupacional que estava a meu cargo, logo participou entusiasticamente dessa idéia. Foi ela quem me apresentou à ilustre educadora Alzira Cortes (viúva do Professor La-Fayette Cortes) que, depois de breve conversação, sentiu e compreendeu a utilidade do projeto. D. Alzira já havia cedido a APAE o primeiro pavimento do casarão onde anteriormente havia funcionado o Colégio Lá-Fayette, na Rua Haddock Lobo. E agora, num gesto de confiança e generosidade, pôs à nossa disposição, sem qualquer formalidade, o segundo pavimento daquele prédio.
Logo começamos a elaborar as normas da nova instituição: Maria Stela Braga, psiquiatra, Belah Paes Leme, artista plástica, Ligia Loureiro, assistente social, e Nise da Silveira, psiquiatra. Para isso nos reuníamos no atelier de Belah, e foi ela quem encontrou o titulo CASA DAS PALMEIRAS, visto que o casarão da Rua Haddock Lobo possuía em seu jardim de frente um grupo de belas palmeiras. Assim evitávamos dar à renovadora instituição um nome que de alguma maneira aludisse às doenças mentais, tão discriminadas socialmente.
Com a presença de alguns psiquiatras e de numerosos amigos, foi inaugurada a Casa das Palmeiras no dia 23 de dezembro de 1956. A Casa, instituição sem fins lucrativos, começou a funcionar imediatamente.
Permanecemos no prédio do antigo Colégio Lá-Fayette até 1968, pois, após o falecimento de D. Alzira, embora nos concedesse largo prazo, a família Lá-Fayette Cortes pediu-nos o prédio que lhe pertencia.
Transferimo-nos para a casa situada a rua D. Delfina, número 39, Tijuca, cedida pela CADEME, graças à iniciativa da Sra. Adriana Coutinho, que na ocasião ocupava o cargo de nossa Diretora Administrativa. A aquisição dessa casa completou-se devido à decidida atuação da Presidente da Casa das Palmeiras, Sra. Maria Antonieta Franklin Leal, em dezembro de 1968. Permanecemos nesse aprazível local durante longo período.
Anos mais tarde, a Sra. Maria Antonieta Franklin Leal, com notável tino administrativo, permutou a casa da rua D. Delfina, que se achava em más condições de conservação, por outra casa, a Rua Sorocaba, número 800, Botafogo, onde desde setembro de 1981 está instalada a Casa das Palmeiras.
A Casa das Palmeiras é reconhecida de utilidade pública pela lei número 176 de 16/10/1963.
(este texto de Nise continua no próximo módulo)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008