Rua Sorocaba 800, CEP 22271-100, Botafogo, Rio de Janeiro, Brasil.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Padrinho ou Madrinha da Casa das Palmeiras

              Padrinho ou Madrinha da Casa das Palmeiras
         Inicialmente agradecemos as pessoas que generosas tem colaborado, efetivamente, para que este sonho de Nise da Silveira se mantenha vivo e atuante.
        A Casa das Palmeiras resiste desde sua fundação 1956. Vive e sobrevive de doações dos clientes/usuários, de poucos sócios, fieis amigos e admiradores de Nise da Silveira. Esta associação civil precisa se manter. E se mantém como Nise determinou: “ um pequeno território livre”.
        Seja Padrinho ou Madrinha da Casa das Palmeiras, por um ano, mensal, com responsabilidade. Ou com uma única doação.
        Sendo um doador mensal, depois de um ano com os comprovantes dos depósitos (o doador) receberá um Pôster/cópia/ de alguma obra realizada nos ateliês de atividades plásticas. Não importa o valor da doação, agradecemos a generosidade.
        Para distinguir de outros depósitos, pedimos, coloquem UM real a mais (Qualquer quantia é bem vinda).  

CASA DAS PALMEIRAS - (CNPJ 33.808.486/0001-48)
Banco Itaú
Agência - 9161
Nº da conta 09906-5 
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Quer ajudar a vida destas pessoas em tratamento
e/ou autoestima na Casa das Palmeiras?
Apenas com qualquer doação por mês (ou uma só quantia) você pode ajudar a manter a Casa e contribuir para reestruturação psíquica e emocional dos clientes nas áreas de atividades ocupacionais: modelagem, desenho, pintura, xilogravura, artes aplicadas (tapeçaria, bordado, tricô, crochê, costura), colagem, poesia, jornal, música, teatro, floral, grupo cultural e filosófico, expressão corporal, biblioteca, jardinagem, lanches e passeios culturais.
Informações: Tel. (21) 2266-6465 (13h30 às 17h – 2ª a 6ª feira)
Atividade biscoitos
 Ateliê - confecção de bandeirinhas

Painel com vários trabalhos

Pintura abstrata
As atividades ocupacionais sempre fazem grande bem
 para a vida  emocional______

domingo, 20 de julho de 2014

Leitura de palavras de Nise da Silveira I


 Grupo de Estudos C. G. Jung - dia 16 de julho 2014 -
 Algumas palavras da leitura e reflexões - Nise da Silveira

    “Primeiro professor de psicologia foi meu pai, professor de matemática e geometria. Trabalhou também em jornal. Eu o acompanhava e ia ver como se faz um jornal. Ele tinha uma grande biblioteca. Tive muita influência de meu pai. Ele fazia todas as minhas vontades. Tive uma educação excepcional, clássica. Fui muito mimada, especialmente, por meu pai. Tinha tudo o que desejava.”
    
   “Minha mãe tinha muito humor. Classificava as pessoas; as que gostavam de cantar das que não gostavam. Para ela estas ela não dava atenção. Minha mãe sempre cantou muito, e achava que meu problema era que eu não cantava, deveria cantar.”

    “Estudei em colégio de origem francesa. Senhores de engenho com muito dinheiro, mas espírito para baixo.”

    “Cães e gatos são co-terapeutas, amigos fieis capazes de dar e receber afeto a quem nem era capaz de se comunicar. Os cães e gatos ensinam o amor com independência. Relacionamento animal e homem, ser humano, é de grande importância.”

    “As pessoas que amam o poder, o comando, não gostam de gatos. Os gatos são seres livres, não seguem normas. Veio aqui uma senhora cheia de empáfia para eu participar de um grande evento internacional que ela está organizando, acontece que de imediato demonstrou aversão aos gatos, foi o suficiente para eu fizer, ‘não posso, os gatos não permitirão’. Ela foi embora sem entender nada.”

    “Meus livros de arte são instrumentos de trabalho. Tenho grandes paixões, Leonardo da Vinci é um deles. Sou particularmente apaixonada é por Rembrandt. Ele mergulhava profundamente como Leonardo. Observe a pintura dele. Se você sonha, você mergulha - o da vigília e o do sonho - dois mundos.”

    “O artista, o poeta, mergulha no inconsciente e volta. Já o doente, o louco, não tem o bilhete de volta. Essa é a diferença.”. “Os esquizofrênicos são pessoas com antenas sutilíssimas, viajam longe, mas não tem o bilhete da volta. O poeta tem o bilhete de ida e volta.”

    “Jamais quis definir o que é loucura. Compre em escafandro e mergulhe junto como esquizofrênico.” “Sempre me dirigi aos doentes pelo nome, jamais os chamo de pacientes. Eu os trato como seres humanos, pessoas. A palavra paciente me irrita muito.”

    “Quando estive em Zurique, em 1957, por ocasião do II Congresso Internacional de Psiquiatria, ao cumprimentar Jung, ele me disse: ‘A pintura de seus doentes me causou estranheza, e fiquei nesses dois últimos dias pensando porquê. Elas são diferentes de outros expositores’. E ele me disse que pinturas do primeiro plano eram pinturas de doentes com alterações psíquicas, mas que o fundo de algumas pinturas o perturbou porque havia ali uma diferença entre o fundo dessas pinturas e a de outros. Que este fundo não era doente, por ser demasiado harmônico para ser de pessoas que estavam com distúrbios psíquicos. Eu fiquei estatelada ouvindo. Ele me perguntou em que condições eles pintavam para que houvesse essa diferença. Respondi que pintavam em ambiente livre e de maneira espontânea. Perguntou se eu tinha medo do inconsciente, respondi que não, mas respeito. ‘Trabalha com pessoas que não tem medo do inconsciente’, foi o que ele acrescentou.”    

    “Devo ao meu encontro com Jung o interesse pela mitologia. Quando conheci Jung falei das minhas dificuldades em compreender as ideias delirantes dos doentes e me queixei das incompreensões dos outros e a minha própria em relação às imagens desenhadas ou pintadas. Ele, fumando o seu cachimbo, me olhou atento e depois de um tempo, meio longo, me disse: ‘como você não pode entender as imagens que você expôs. Elas falam a linguagem dos mitos. Você estudou mitologia? Respondi que não, o que sabia era muito superficial, não era matéria a ser estudada. Ele me disse; ‘Se você não conhece os mitos não pode entender os delírios dos doentes, a pintura que eles fazem’ Fiquei gelada. ‘Essas figuras vem do fundo do inconsciente. A linguagem do inconsciente é a linguagem mitológica.’ Passei a estudar mitologia a partir das pinturas de Adelina que disse desejar se flor. Adelina viveu o mito de Dafne. Foi meu primeiro caso de estudo de mitologia.”

    “A inteligência e a sensibilidade do esquizofrênico permanece intacta mesmo na aparência de estar cingida, em ruínas. Verifica-se isso com clareza quando encontra alguém com quem ele possa se relacionar afetivamente.”  “A psique, mesmo do esquizofrênico, tem um potencial autocurativo. Através do afeto forças internas podem se manifestar. O inconsciente se expressa nas atividades criativas individuais.”

    “Psiquiatria é entender o processo psíquico interno. Os psiquiatras, geralmente, nem olham para os seus clientes, muito menos nos olhos. Não há cura possível sem relacionamento.”

    “O nosso trabalho não visa criar artistas, é um tratamento através das atividades plásticas. O olhar, as mãos, os gestos podem me dizer alguma coisa. Sempre estive próxima de artistas plásticos, eles são menos burros que os médicos. Não sou artista, mas como todo mundo, gosto de arte. Tenho vários livros de arte aqui na minha biblioteca. Meu interesse pela expressão plástica é mais no sentido da procura das expressões mais profundas do inconsciente. A linguagem não verbal diz muito mais que a verbal.”

     “Não sei fazer nada sem procurar uma base mais profunda, sem ler, pesquisar. As referências são fundamentais.” “Não dissipe as imagens oníricas. O analista corre atrás do cervo, mas não o mata, tem que pegá-lo vivo, estudá-lo vivo. Tem que pegar a imagem viva e não estripá-la.”

    “Nosso objetivo principal é entrar no mundo interno do doente, é conhecer este mundo e que ele entre em contato conosco. Não é desejo de que o doente se expresse de forma artística, o que nós queremos é que ele se expresse em imagem, como linguagem. O simples fato de desenhar ou modelar é terapêutico. Ele fica mais leve, diminuem o medo e as tensões.”

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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Pensamentos/palavras de Nise

Hoje dia 16 e 30 de julho no Grupo de Estudos C. G. Jung

leremos pensamentos/palavras de Nise da Silveira.
Das 19h ás 20h30 - Rua Sorocaba, 800 - Aberto ao público
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terça-feira, 15 de julho de 2014

Círculo Filosófico e Floral

      Frases escritas no Círculo Filosófico. Atividade que se realiza uma vez ao mês na Casa das Palmeiras, após o lanche, é um espaço de reflexão, sempre com tema proposto pelo grupo. Ontem, 14 de julho:
O que representa a Casa das Palmeiras?
Cada um  o que escreveu. Transcritos aqui como os autores redigiram

 - A Casa das Palmeiras representa apoio terapêutico, afeto catalisador, amizade que proporciona convivência agradabilicíssima para todo. /T. J.

- A Casa das Palmeiras é solidariedade.
É amor.
É cultura.
É imaginação.
É higiene.
É distração.
É disciplina
São portas abertas a todos horizontes. Deus?! / (completa oralmente: ‘falei portas, são portas abertas e não janelas’) D. C.

 - A Casa das Palmeiras e um lugar onde habita (mora) ninguém e tem que conhecer o neto que é Jesus Cristo (aponta para quem assinou Deus e diz: ‘ele é a mãe dele o pai Jesus Cristo’) /J. Q.

 - Eu quando chego na Casa das Palmeiras eu me sinto um ar muito Bom e é muito purificador que faz bem pra saúde quando eu entro na Casa eu sinto outra pessoa e aí eu aprendo muito quando tem atividade eu participo muito delas eu gosto de todas as atividade eu participo muito delas eu gosto de todas as atividade da Casa, mas quando chega sexta-feira eu fico muito triste mas eu fico muito alegre quando chega segunda-feira eu fico muito feliz . E muito contente e também fico alegre que chegou segunda-feira eu fico muito pra fazer muitas atividade que tem na Casa e fico viajando mas quando termina eu fico triste. L.

 - A Casa das Palmeiras é abençoada e alegre. Gosta das plantas
Deus criou a natureza. A casa das Palmeiras é uma terapia ocupacional
Ocupa a cabeça. É a cabeça. /C.

- A Casa das Palmeiras significa muito para mim, significa minha ocupação às tardes de 2ª a 6ª feira, com atividades interessantes, como musicoterapia, passeios, poesia, teatro, expressão corporal, etc. e recentemente estou tendo aulas de flauta doce com o amigo, que tem demonstrado ser Fernando Muller. Acabou a Copa! Chega de feriados!
Vamos para a Casa das Palmeiras! VIVA /A. M.

- A Casa das Palmeiras é legal
É tem muitas coisas que Eu gosto.
A Casa das Palmeiras me faz muito feliz.
A casa das Palmeiras representa tudo para mim. /C.B.

- A Casa das Palmeiras é Amor Nise da Silveira
Não é idolatria não é motivo e deleite

Amor Casa das Palmeiras Nise da Silveira / J.

~~~~~~~~~~~~~~ FLORAL- 14 de julho de 2014

Casa das Palmeiras - um espaço de atividades ocupacionais
com afeto e emoção de lidar, cultura e pesquisa.
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terça-feira, 8 de julho de 2014

Dia 7 de julho de 2014 na Casa das Palmeiras

Quando fazer biscoitos é prazer e terapêutico

       Ontem, dia 7 de junho de 2014, mais um dia de atividades ocupacionais, criativas, na Casa das Palmeiras.
      Abrindo as portas às 13h com o ateliê de pintura, desenho e colagem. 
     Leituras breves na hora do cafezinho.
     Às 14:45h - Laboratório de Biscoitos (com ou sem açúcar) - a satisfação em mergulhar as mãos na massa: farinha de trigo, aveia, ovo, manteiga, açúcar, castanhas de caju, passas.    
     Orientações são dadas seguindo a receita. O prazer da degustação com os biscoitos já prontos, logo depois da confraternização que é o lanche. 

  Biscoitinhos de aveia e passa, sem açúcar. Prontos para o ir ao forno.


 Biscoitos estrelinhas com açúcar e castanha do cajú - já prontos.
 Brincamos dizendo que os biscoitinhos são “modelagem comestível”!


Colaboradoras atividades plásticas e manuais.







Às 16h o Clube Caralâmpia, espaço democrático onde se planejam os eventos/festas, os passeios, e, as reclamações ou propostas são feitas. Onde se discute calorosamente e se ri com a presença de todos que atuando na Casa queiram estar presente. Sempre abrindo e terminando, esta atividade, cantando o Hino Caralâmpia.
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quarta-feira, 2 de julho de 2014

O Mundo das Imagens - Nise da Silveira

 
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Hoje, dia 2 de julho, teremos no Grupo de Estudos C. G. JUNG leitura de texto – Nise da Silveira - IMAGENS DO INCONSCIENTE –


(...)   "A pintura revelará muito sobre a maneira como o individuo apreende as coisas, sobre sua visão do mundo. Esta visão depende, em principio, de suas vivências do espaço. A semiologia psiquiátrica tradicional é muito pobre na investigação das perturbações das vivências do espaço. É necessário reconhecer no espaço dimensões subjetivas que o farão parecer claro ou escuro (E.Minkowski), no espaço claro (não se trata de luz física) há distância, há espaço vazio, livre, entre os objetos que se apresentam com suas delimitações nítidas, no espaço escuro, também não se trata de luz física, mas de uma sensação de envolvimento, do individuo sentir-se apertado, oprimido pela obscuridade, os objetos de tanto estarem próximos imbricam-se, interpenetram-se, resultando daí uma visão caótica do mundo, o estudo atento dos casos de pintura de esquizofrênicos levará o pesquisador a verificar que não está diante de rabiscos tumultuosos lançados a esmo que lhe permitam usar as etiquetas de “deterioração” ou de “demência”, mas de um caos em sentido bíblico, ou seja, da massa confusa de onde todas as coisas tiveram origem.
É comovedor acompanhar, através de centenas de pinturas, os esforços enormes que um homem faz para retirar os objetos do caos, pinçá-los por assim dizer, enquadrá-los para prendê-los, até conseguir dispô-los em arranjos bem próximos daqueles exigidos na faixa da realidade. É o que chamamos a busca do espaço
Cotidiano.

Até ai nos movemos em áreas bastante próximas do consciente, mas não têm medida as profundidades da psique que a produção plástica livre de esquizofrênicos nos poderá fazer vislumbrar".
Centenário de C. G. Jung - 1975, Rio de Janeiro.
Catálogo da Exposição Museu de Arte Moderna – 
Das 19h às 20h30 – aberto ao público - Rua Sorocaba, 800 - Botafogo
Tel (21) 2266-64665
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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Olhares -O olhar da poesia


                    O olhar da poesia
         
          Pela multiplicidade de olhares possíveis, escolhi falar do diálogo na interface Literatura/Loucura/Artes Plásticas. Daí, em rápidas pinceladas, fiz três recortes, tendo a poesia como fio condutor: “O olhar na Casa das Palmeiras”, “O olhar do poeta”, “O olhar de Van Gogh”.  
                           
        1ª parte: O olhar na Casa das Palmeiras – Grupo de Poesia
         Faço o primeiro recorte para comentar a Poesia na Casa das Palmeiras.
         O grupo se reúne na quarta segunda-feira de cada mês. Além da presença dos clientes, contamos com a participação de estagiários e, eventualmente, de coordenadores de outras áreas e do presidente da Casa.
         Em abril de 2004, participei, pela primeira vez, como coordenador do Grupo de Poesia, dando seguimento à atividade.
         A cada reunião, distribuímos, aos participantes, algumas laudas digitadas, quase sempre contendo fotos e pequenas biografias dos poetas que vamos estudar, junto com alguns dos seus textos mais representativos. O coordenador lê as biografias e faz comentários, incentivando a participação. As poesias são lidas por todos os presentes, que, em diálogo com o coordenador, fazem suas observações. Os clientes são motivados a dizer se gostaram ou não e por qual razão. Tentam responder à célebre e irrespondível pergunta: O que será que o poeta quis dizer?
         Vamos chamando a atenção para alguns tópicos que abordamos de forma bem simples, objetivando o entendimento de todos: Rimas, Métrica, Ritmo, Formas fixas,  entre outros.
         Uma palavra ou trecho de um poema é escolhido para que cada cliente faça o seu poema: é o “tema do dia”, já presente em parte do material distribuído (exemplos: “Amigo”, “Céu”, “Espelho”, “Nuvem”, “Sonho”, “No meio do caminho tinha uma pedra”); algumas vezes uma imagem serve de tema, como um desenho, uma fotografia etc.; em muitas ocasiões a escolha fica a critério do grupo.
        Ao final, é dado um tempo (em torno de 10 a 15 minutos). Eles escrevem, e depois cada um lê o seu texto. Ao analisá-los, buscamos o envolvimento de todos, incentivando para que comentem o próprio trabalho e também o do outro.
         Os trabalhos são assinados, datados e arquivados na Casa, ficando disponíveis para pesquisas e com possibilidade de auxílio a tratamentos futuros.
        Algumas vezes, convidamos um poeta para fazer palestra. Já estiveram conosco Afonso Henriques Neto, Geraldinho Carneiro, Eduardo Tornaghi, Antonio Carlos Secchin, Suzana Vargas, entre outros.
        A Atividade, como um todo, visa fazer com que os clientes se expressem, se comuniquem, seja por escrito ou verbalmente.
        Nesses 10 anos de convivência, lidando com pessoas com maior ou menor dificuldade para se expressar, pude constatar que o cliente da Casa não difere muito de outras pessoas. Concentra-se na hora de escrever seus textos; alguns fazem ótimos poemas, outros produzem encantadoras mensagens em prosa e até, com certa frequência, desenhos bem elaborados, demonstrando grande sensibilidade. E é essa sensibilidade que faz com que ele se comporte, frente à Poesia, da mesma maneira que o poeta.
        De modo geral, o cliente da Casa tem o olhar e o sentimento que o poeta precisa ter, às vezes traduzindo o ambiente que nos cerca, o exterior, e num outro momento, mergulhando no seu mundo interior para se expressar singularmente.

         2ª parte: O olhar do poeta
         
         Cabe a pergunta: Como ocorre o processo de criação? Uma palavra, um filme, um acontecimento de rua, um cheiro, um livro, um quadro: o acaso, a emoção, o espanto, uma dor, a magia do olhar. Tudo pode disparar o processo.
         Muitas vezes, o poema é a tentativa de capturar as imagens. O poeta olha as coisas como se apresentam e imagina como poderiam ser.
         Aqui, faço um recorte para falar de dois poetas: Gullar e Drummond.
         Ferreira Gullar, poeta, cronista, dramaturgo, crítico de arte, tradutor e biógrafo de Nise da Silveira, disse na introdução de seu livro Relâmpagos (na capa, foto do rosto do autor, destacando o olho): “Toda obra de arte atinge nosso olhar como uma inesperada fulguração, um relâmpago. Atrevi-me algumas vezes a tentar fixar esse relâmpago em palavras”. Na página 142, ele nos dá um exemplo de Literatura dialogando com Artes Plásticas. Olhando para uma tela do pintor mineiro Carlos Bracher, escreveu o poema:

Pintura

Eu sei que se tocasse
com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos.

         Carlos Drummond de Andrade tem vários trabalhos com o tema Artes Plásticas. Um exemplo interessante é o conjunto de 21 poemas intitulado Quixote e Sancho, de Portinari. Os textos foram compostos para acompanhar os desenhos executados por Cândido Portinari, que compõem o álbum Dom Quixote, inspirado nas aventuras do famoso cavaleiro andante.
         Do diálogo entre Cervantes, Portinari e Drummond, cria-se um olhar circular, se é que podemos dizer assim, sobre o conjunto Literatura/Artes Plásticas/Literatura.      
         Destaco o poema XI:

Disquisição na insônia

Que é loucura: ser cavaleiro andante
                ou segui-lo como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?

O que, acordado, sonha doidamente?
                 O que, mesmo vendado,
                 vê o real e segue o sonho
de um doido pelas bruxas embruxado?
Eis-me, talvez o único maluco,
e me sabendo tal, sem grão de siso,
sou ― que doideira ― um louco de juízo.
                           
        3ª parte: O olhar de Van Gogh

         Depois de passar rapidamente pelo olhar múltiplo do poeta Ferreira Gullar, pelo do gênio Miguel de Cervantes, pelo do grande pintor Cândido Portinari e pelo do maior poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, chego ao “Olhar de Van Gogh”. Também aqui fiz uso do recorte para dialogar com a visão, ou melhor, com os olhares de dois escritores sobre o olhar de Van Gogh: José Castello e Antonin Artaud.
         Quando esta folha ainda estava em branco, perguntei a mim mesmo: o quê e como falar de Van Gogh?
         Que Van Gogh nasceu em 1853 e suicidou-se aos 37 anos de idade, é apenas uma informação já tantas vezes divulgada. Que tinha um olhar privilegiado, todo mundo sabe. Que foi um gênio das Artes Plásticas e nas suas pinturas nos legou poesia no mais puro estado, também não é novidade.  Então, como falar de Van Gogh, em pleno século XXI, quando tudo, aparentemente, já foi dito sobre ele? E, ainda mais, neste curto espaço de tempo (20 minutos). Tinha que ser alguma coisa nova ― quase uma impossibilidade ―, nem que fosse uma ficção, e foi. Por acaso, e o acaso existe, encontrei na coluna do José Castello, no Caderno Prosa, do Globo, de 24/05/2014 o texto “Nasce Van Gogh”. Com ele, Castello tenta responder a algumas questões: Como nasce a arte? De onde veio a pintura de Vincent Van Gogh? De qual empurrão, de qual susto? Perguntas que muitos de nós frequentemente nos fazemos.
         O colunista se debruça sobre o livro Todas as cores do mundo, do jovem escritor italiano Giovanni Montanaro, que eu nunca tinha ouvido falar, mas que agora se junta ao quarteto Gullar, Cervantes, Portinari e Drummond. E a história me encantou. É um romance, narrado na primeira pessoa, em forma de carta ao pintor holandês escrita pela jovem Teresa Senzasogni, que traduzido seria Teresa Sem Sonhos. Ela herdou o nome da mãe, que não conseguia dormir, nunca dormia, e por isso passou a ser chamada de Sem Sonhos.
           Teresa vivia na pequena cidade de Gheel, no norte da Bélgica, uma vila de 3 mil habitantes, dos quais cerca de mil eram loucos. As famílias foram incentivadas a adotar os loucos para lhes dar um destino. Teresa, ela própria filha de uma mulher considerada louca, e embora absolutamente lúcida, é adotada pelos Vanheim. Para facilitar os procedimentos de adoção, os pais atestam sua suposta loucura.
        E como Van Gogh entra na história? Assim: por acaso, vagando pelo campo, um dia, sem querer, ele chega a Gheel. Naquela tarde, era esperada a chegada de um novo louco. Um acidente na estrada impediu, porém, que ele prosseguisse viagem. O jovem Van Gogh toma seu lugar. Ela, aos 16 anos, conhece Vincent. Castello nos diz: “Por ele se apaixonou e, por força desse amor, o levou a trocar seus desenhos escuros pela arte luminosa e cheia de cores que hoje conhecemos”. Digo eu: mudou o olhar.
         Continua o colunista: “Teresa percebe a sua genialidade, mas também o passo que falta para chegar até lá”. A jovem confessa ao amigo: “Eu me espanto com a quantidade de cores que existem”. E o convence a experimentá-las ― levíssimo empurrão que impulsiona Van Gogh para sua arte.  Ela lhe dá a primeira tela e o primeiro conjunto de tintas coloridas. Vincent diz: “Você é bem estranha, Teresa”. Ela reage: “E o senhor?” Van Gogh medita calmamente: “Não me importo por ser estranho”. A jovem conclui: “Eu também não. Percebe como somos iguais?” Teresa lembra que lhe disse: “Em minha opinião o senhor será pintor”.
         Castello nos diz: “O que há de mais comovente na história de Giovanni Montanaro é a inocência”.  Teresa, mesmo sem saber, impulsiona Vincent para o seu destino. Leva-o a descobrir que o importante não é reproduzir a natureza, mas pintar aquilo que se descortina em sua mente. Nas entrelinhas, percebe-se que Teresa tem o olhar voltado para as coisas mínimas do afeto. Van Gogh declara: “Não me importa que a cor seja exatamente aquela que vejo, desde que fique bonita na tela, tanto quanto na natureza”. E é assim que ele consegue, com sua genialidade, colocar uma poesia visceral em suas pinturas.
         Trazendo o olhar do artista para o primeiro plano, José Castello consegue responder à pergunta inicial, “Como nasce a arte?” Conclui de forma sucinta: “Dessa ruptura, em que o olhar do artista se torna mais forte que qualquer outro elemento, a arte enfim nasce”.
         E para encerrar minha fala, recorro a Antonin Artaud, um dos maiores conhecedores da alma do pintor holandês. Poeta, ator, dramaturgo e diretor de teatro, ele é o autor de Van Gogh: o suicida da sociedade, traduzido por outro poeta, Ferreira Gullar. O olhar do pintor atravessa o livro, da capa à contracapa, com a foto de seus olhos, e percorre todo o texto nas palavras de Artaud. Na página 89, o autor afirma: “O olhar de Van Gogh é pendente, fixo, ele é vítreo atrás das pálpebras curtas, das sobrancelhas estreitas e sem nenhuma ruga”.
         Volto para a página 88, onde Artaud se indaga e provoca:
         “Um louco, Van Gogh?”
         Ele mesmo responde:
         “Aquele que soube um dia olhar um rosto humano, olhe o autorretrato de Van Gogh, penso naquele com um chapéu de feltro.
         Pintada por Van Gogh extralúcido, esta figura de carniceiro ruivo que nos inspeciona e espia, que nos perscruta também com um olho feroz.
         Não conheço um só psiquiatra capaz de perscrutar um rosto de homem com uma força tão esmagadora e destrinchá-lo com infalível psicologia”.
         E para concluir, o autor cobre de elogios e compara Vincent Van Gogh a um grande filósofo:
         O olho de Van Gogh é de um grande gênio, porém a maneira como o vejo dissecar-me do fundo da tela em que surgiu não é mais o de um pintor genial neste momento, mas o de um filósofo que jamais encontrei na vida”.
                
                                            Casa das Palmeiras, 7/6/2014

                                           Augusto Sérgio Bastos